A reformulação do telejornalismo local nas afiliadas da Globo, especialmente no Nordeste, já começa a produzir efeitos que vão muito além da audiência. Em Sergipe, o possível desligamento da jornalista Susane Vidal do telejornal do meio-dia da TV Sergipe abriu uma discussão incômoda e cada vez mais recorrente: até que ponto a televisão tem servido como plataforma de lançamento para carreiras políticas?
A mudança editorial, que busca aproximar os telejornais de uma linguagem mais popular e de maior apelo junto às classes trabalhadoras, teria deixado alguns nomes tradicionais fora dos novos planos. Nos bastidores, a informação é de que Susane Vidal já sabia que não continuaria na nova fase do jornalismo da emissora.
O que chama atenção, no entanto, é o próximo passo. Sem histórico político, a apresentadora deve migrar diretamente da bancada do telejornal para o cenário eleitoral, com uma possível candidatura a deputada estadual. A movimentação, segundo fontes, incluiria alinhamento com grupos ligados ao bolsonarismo e apoio de lideranças políticas locais.
A situação não é inédita. Em Aracaju, o atual vice-prefeito Ricardo Marques também construiu sua imagem pública à frente do mesmo telejornal, o que reforça a percepção de um padrão que se repete.
Críticos apontam que a visibilidade diária na TV, somada à credibilidade construída junto ao público, cria uma vantagem desleal quando esses profissionais decidem ingressar na política. Para muitos, o fenômeno transforma o jornalismo local em uma espécie de “pré-campanha informal”, onde a exposição contínua substitui o debate público e o histórico político.
Por outro lado, há quem defenda que comunicadores têm o direito legítimo de migrar de carreira, desde que respeitem as regras eleitorais. Ainda assim, o timing dessas transições quase sempre após anos de forte presença midiática levanta dúvidas difíceis de ignorar.
Enquanto a Globo tenta reconquistar audiência com uma linguagem mais popular e rostos mais próximos do público, uma pergunta continua ecoando nos bastidores e nas redes sociais: trata-se apenas de uma mudança editorial ou de um ciclo que transforma jornalistas em candidatos?
Coincidência ou estratégia, o fato é que, em Sergipe, a linha entre informação e influência parece cada vez mais tênue.