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Verba de R$ 177,6 mil de Gustinho Ribeiro vai para ex-assessor ligado a site crítico a Sérgio Reis
Pagamentos feitos pelo deputado Gustinho Ribeiro a empresa de ex-auxiliar da mãe coincidem com atuação digital marcada por embates contra adversários do grupo político
Por André Morais
Publicado em 19/02/2026 10:33 • Atualizado 19/02/2026 10:42
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Em 2025, o deputado federal por Sergipe Gustinho Ribeiro (ex-Republicanos, atualmente no PP) utilizou R$ 177.651,91 da Cota para Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP) para pagar a empresa Rayllan Robson Monteiro Fernandes LTDA por “serviços de marketing digital”, descritos nas notas fiscais como “divulgação parlamentar nas redes sociais”. Os documentos, referentes ao período de maio a dezembro, estão disponíveis no sistema de prestação de contas da Câmara dos Deputados.

O uso da cota parlamentar para divulgação das atividades do mandato é permitido pela legislação. Criada em 2009, a CEAP funciona como reembolso de despesas relacionadas ao exercício do cargo, incluindo passagens aéreas, manutenção de escritório e comunicação institucional. Em Sergipe, o valor mensal disponível por deputado é de R$ 45.933,06, podendo o saldo ser acumulado ao longo do ano. Em 2025, os oito deputados federais sergipanos consumiram juntos R$ 3.872.692,33 da cota.

Apesar da legalidade formal da despesa, o destino dos mais de R$ 177 mil chama atenção pelo contexto político e pelas conexões pessoais envolvidas.

Ligação política

O empresário Rayllan Robson é ex-auxiliar do gabinete da deputada estadual Áurea Ribeiro (Republicanos), mãe de Gustinho. Ele atuou na Assembleia Legislativa de Sergipe (Alese) entre março de 2024 e maio de 2025. Antes, foi assessor do deputado estadual Ibrain de Valmir (PV), de 2019 a 2024.

Os pagamentos da cota parlamentar começaram logo após sua saída do gabinete de Áurea. Paralelamente, Rayllan intensificou a atuação em um portal criado em 2023 e em um perfil homônimo no Instagram, com mais de 20 mil seguidores, cuja primeira publicação data de junho de 2025.

As postagens relacionadas a Gustinho Ribeiro, à deputada Áurea e à ex-prefeita de Lagarto Hilda Ribeiro esposa do deputado são majoritariamente elogiosas. Já conteúdos envolvendo o atual prefeito de Lagarto, Sérgio Reis (PSD), adversário político do grupo Ribeiro, apresentam tom crítico.

Embate judicial

Entre as publicações do portal está um vídeo em que um morador de Lagarto acusa o prefeito Sérgio Reis de perseguição e ameaças. Após o repost do conteúdo, o prefeito ingressou com duas ações judiciais contra Rayllan Robson: uma por calúnia, difamação e injúria, e outra por danos morais, ambas solicitando a remoção do vídeo.

A queixa-crime foi rejeitada pelo Ministério Público sob o entendimento de que Rayllan não era o autor do vídeo, apenas o responsável pela página onde foi divulgado. Já a ação por danos morais foi encerrada sem julgamento de mérito.

A assessoria do prefeito foi questionada sobre eventual conhecimento da relação entre o deputado federal e o responsável pelo portal à época das ações, mas não houve resposta até o fechamento desta matéria.

Procurado, Rayllan afirmou que os valores pagos pela cota parlamentar “referem-se exclusivamente a serviços de marketing digital”, não abrangendo divulgação no portal ou no perfil administrado por ele. Gustinho Ribeiro e a deputada Áurea também foram contatados, mas não se manifestaram.

Cota sob suspeita

O caso ocorre em meio a investigações nacionais envolvendo o uso da CEAP. Deputados federais de outros estados já foram alvo de apurações da Polícia Federal por suspeitas de contratos irregulares com recursos da cota.

Em Sergipe, investigações anteriores já apontaram questionamentos sobre contratos de locação de veículos e produção de conteúdo financiado com verba parlamentar.

Embora o pagamento feito por Gustinho Ribeiro esteja formalmente amparado pelas regras da Câmara, especialistas em transparência pública defendem que a legalidade não afasta o debate ético especialmente quando há vínculos políticos e familiares entre contratante e contratado.

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